Esqueço-me de tudo, até do amor
e do pão
Pois s inutilidades me atingem num vendaval de ausências e feijoeros secos
Faço preces de manhã para os sorrisos
e cuido do gato
(não há mais uso para mulheres neste olvido)
Ontem, o crepúsculo era pálido, a noite esparramou-se apodrecida sobre os terraços
e nenhuma alma cantou
Fiz minha colheita de silêncios
e aqui estou
avesso de pintura, branco no branco, rastro de formiga no muro
Refestelada de brotos de lírios, causo um certo iridescer no dia de amanhã
sábado, 5 de novembro de 2011
Despedida
Partirei ao amanhecer quando o gelo do inverno estiver fazendo águas, ou
no momento exato em que o vento remover a última folha do outono,
Mas não irás perceber
estas marcas de autenticidade do tempo
Estarás mais distraída que sempre
Tentando entender o sofrer
com a mesma racionalidade das ovelhas - à distância dos lobos.
(e na distância dos lobos, não poderás,
simplesmente)
Também te preocupam as razões do mundo (como se
o mundo pudese repousar e razões, e não em fogo)
E eu partirei
Na exata impossibilidade de te
florirem os olhos como as cerejeiras acasaladas com o vento
Não é preciso entender o amor
nem esperar a morte: ambos
estão no cerne de nós mesmos
que fazemos fugas
e mais
fazemos águas
naufragados em lágrimas
ou
desejos.
Mas trânsfugas dessa nossa mortalidade
Só o amor
Só ele e a morte definem a parcela de humano que há em mim
(e talvez em ti)
Quando eu partir, serei só
esquecimento.
E dróseras para os insetos
no momento exato em que o vento remover a última folha do outono,
Mas não irás perceber
estas marcas de autenticidade do tempo
Estarás mais distraída que sempre
Tentando entender o sofrer
com a mesma racionalidade das ovelhas - à distância dos lobos.
(e na distância dos lobos, não poderás,
simplesmente)
Também te preocupam as razões do mundo (como se
o mundo pudese repousar e razões, e não em fogo)
E eu partirei
Na exata impossibilidade de te
florirem os olhos como as cerejeiras acasaladas com o vento
Não é preciso entender o amor
nem esperar a morte: ambos
estão no cerne de nós mesmos
que fazemos fugas
e mais
fazemos águas
naufragados em lágrimas
ou
desejos.
Mas trânsfugas dessa nossa mortalidade
Só o amor
Só ele e a morte definem a parcela de humano que há em mim
(e talvez em ti)
Quando eu partir, serei só
esquecimento.
E dróseras para os insetos
Tempo
Em cada noite, uma gota
E a todo dia, um punhado
De hora em hora, mais se junta
De solidão
dentro de mim
Solidão em solidão se soma
Quase em escuro
dia sem dia é noite
Uma dose a mais, mais uma
E vem um deus voraz que rouba de cada riso a felicidade
Antes de amanhã morrerei
sem teu rosto
E a todo dia, um punhado
De hora em hora, mais se junta
De solidão
dentro de mim
Solidão em solidão se soma
Quase em escuro
dia sem dia é noite
Uma dose a mais, mais uma
E vem um deus voraz que rouba de cada riso a felicidade
Antes de amanhã morrerei
sem teu rosto
domingo, 3 de julho de 2011
Fogos
Abri minha página de bolso, ainda em papel
E lá você escreveu
E deixou pra nunca ou para sempre, ainda não é certo o que poderá vir a ser
O fogo que arde e faz arder o coração e as terras altas de meu ser,
Então eu fui marcada neste fogo e vai arder
E vai queimar
E eu vou ser
Aquela que ama o fogo
A cada fogo que tua chama acender....
segunda-feira, 13 de junho de 2011
2012 Moções
Meu barco jaz exangue em seu porto:
Icei velas, fui a alto mar
Singrei os mares de piratas, de monstros e cheguei ao abismo vago do horizonte
Onde as terras incógnitas estão
E seus abrolhos, suas altas falésias e apenas
Uma baía calma pude encontrar.
Foram muitos dias, contarei em anos a viagem, desde que parti:
Foram 42 os anos de noites, de vento ou de calmaria,
As tempestades, os sóis, a solidão absoluta de ninguém
E foram as carnes, as águas escasseando em meu corpo
E foram as palavras as frases os silêncios se calando em meu rosto
E foram as rugas, os caminhos do tempo
E a dura espécie de solidão que germina em meus ombros com o peso dos mundos de atlas
Tudo tua descoberta desfez,
Todo desencontro
Todo cansaço persistente das velas levantadas
Todo do não acontecimento das velas baixas sem vento
Todo fragor das tempestades e a placidez das ausências
Tudo tu substituíste
Plenamente
E imensa
E destituíste a inutilidade das palavras
E eu cantei
E refizeste a alegria dos sonhos e
Eu vivi
Mas a baía é pequena como um travesseiro, não cabe todo o penar, as angustias e os medos com que vieste
E meu barco terá que partir, eu sei
E será logo
E será breve o tempo em que fui feliz.
terça-feira, 24 de maio de 2011
Para amar o amor desde longe
O amor é este: núcleo ígneo de rocha fria; pedra na torrente; breu no meio do sol;
Teu corpo calculadamente penso
Meu corpo absolutamente em queda
E a alma ardente
dentro de mim feito asa que se quebrou aguarda
ventos mais límpidos
braseiro de fogo alto
ou
somente
as águas de teu gesto sobre minhas terras emersas
segunda-feira, 23 de maio de 2011
Pensando manuel
As coisas pretendem ser pessoas, com sua alma crescendo sobre as águas e dentro do ar, meio limo meio voz.
As coisas pretendem uma alma pequenina e duradoura, quase eterna.
Eu pretendo ser coisa, de vez em quando sem sentir nem mesmo teus olhos à distância, escavando meu peito aberto sem espaço
onde o coração seria.
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